A  MINHA  ALMA  GLORIFICA  O  SENHOR
POESIA DE TEMA RELIGIOSO

Manuel Maria Barbosa du Bocage
 

À PURÍSSIMA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA
 

Canto

 

Profana lira, a moles sons afeita,

Vil instrumento, minha mão te enjeita:

Caducas perfeições, servis amores,

Não mais, não maculeis os meus louvores.

Tu, doce chama, angélica ternura,

Que o Criador envia à criatura,

Oh dádiva celeste, oh dom do Imenso,

Com que aterramos Satanás infenso,

Com que a tormenta das paixões se acalma,

Baixa dos Céus e purifica est’alma.

Eis desce, eis desce, não me engano, é Ela!

Agora sim, que posso, ó Virgem bela,

Enxugar criminoso, indigno pranto,

E a Teus ouvidos elevar mau canto:

Profana lira, a moles sons afeita,

Vil instrumento, minha mão te enjeita.

 

Inda no horror do caos, ou do Nada

Jazia a Natureza inanimada;

Inda na vasta região dos ares

Os grandes, os pasmosos luminares,

Que o pólo aclaram, que os viventes guiam,

Que as ondas abrilhantam, não luziam,

E já Maria para Deus guardada,

Na ideia omnipotente era criada.

Ah, cante-se o prazer, cante-se a glória

Do Céu, da Terra; aclame-se a vitória

Da Imaculada Virgem sacrossanta,

D'Aquela, que te impôs a invicta planta,

Tartárea Serpe, na cerviz medonha,

Ficando ilesa da infernal peçonha!

Lá vejo os pais comuns, que o monstro oprime,

Lá caminha o Remorso após o Crime,

Lá ouço a voz horríssona do Eterno,

Que faz tremer a abóbada do Inferno.

Deus grita, Deus pergunta: «Ingratos, como

Vos atrevestes ao vedado pomo?

Quê? Pretendíeis ombrear comigo?

Da vossa rebeldia eis o castigo:

Do Éden minha justiça vos desterra,

Ide habitar a miserável Terra:

Ela avarenta, Adão, jamais enxutos

De teus suores te dará seus frutos;

Tu, crédula mulher, que o seduziste,

Com dor produzirás, e o duro, o triste,

Padecimento, a que ambos vos condeno,

E que a tão grave culpa inda é pequeno,

Grassará com terrível igualdade

Pela vossa infeliz posteridade».

 

 

Oh, sentença fatal! Oh, cruel sorte!

Herança horrível! O pecado! A morte!

Já principiam a ferver na Terra

A Soberba, o Furor, a Inveja, a Guerra.

Da vítima primeira o sangue corre:

Abel, o grato ao Céu, lá cai, lá morre

Às mãos perversas de Caim maldito,

E aos astros sobe da Inocência o grito.

Pune, fulmina os monstros do pecado

O braço vingador de um Deus irado:

Ele as etéreas cataratas solta,

Paternos olhos a Noé só volta:

Cai a torrente, em atras nuvens presa,

E agoniza, boiando, a Natureza.

Que espectáculo, oh céus! Que horror! Que espanto!

A negra estância do contínuo pranto

O proscrito universo representa

Na pavorosa, na geral tormenta;

E o divino furor, inda não pago,

Arroja sobre os homens novo estrago;

Ele, Babel sacrílega, te arrasa,

Ígneo chuveiro, ó Sodoma, te abrasa,

Aqui e ali, silvando, o raio voa;

Mas o terrível Deus enfim perdoa.

Vê com piedade o mundo agrilhoado

Pelo tirano, contra nós armado,

Que rege as trevas do medonho Inferno,

Que ceva as fúrias em tormento eterno.

 

Remir-vos, ó mortais, do cativeiro

Eis que resolve o númen justiceiro:

Fecundada por Ele idosa planta,

Brota o celeste fruto, a pura, a santa,

Cujo louvor os serafins entoam

No refulgente Empíreo, que povoam;

E cuja Conceição, por Deus obrada,

Da mancha universal foi preservada.

Virgem depois de mãe, Mulher bendita,

Debalde o torvo Lúcifer vomita

Contra Ti do espumante, horrível seio

O veneno letal, de que está cheio:

Contra Ti seu furor em vão despede,

A Teu alto poder o monstro cede:

Tu lhe calcas a fronte ameaçadora,

Que erguera para Deus; Tu, vencedora,

Por terra deixas o dragão danado,

Que nos Infernos cai desesperado,

Arremessando ao Céu com voz blasfema

Hórridas pragas contra a mão suprema.

Esposa, Filha, e Mãe omnipotente,

Íris de paz à deplorável gente,

Depósito inefável da pureza,

Que honraste a nossa frágil natureza;

Do Deus-Homem digníssimo sacrário,

Que os tesouros sem fim do eterno erário

Resumidos conténs nas graças Tuas;

Que outros sóis, outros astros, outras luas

Invisíveis a nós, lá vês, lá pisas

No almo, nítido Céu, Tu divinizas

Meus versos, dedicados até'gora

A vãos prestígios, que a fraqueza adora.

Ah! Dos Teus olhos um volver piedoso

Desarme, ó Virgem bela, o justiçoso

Ente imortal, que os ímprobos fulmina;

Apaga o raio, que na mão divina

A prumo sobre a fronte me chameja,

A quem Te invoca Teu favor proteja.

 

E vós, sábios alunos, que obtivestes

Tão vasta profusão dos dons celestes,

Fecundas mentes, o calor sagrado

Exalai neste dia abençoado,

Dos lábios entornando as frases de ouro,

Com que tendes ganhado o Aónio louro.
 

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