A  MINHA  ALMA  GLORIFICA  O  SENHOR
POESIA DE TEMA RELIGIOSO

Padre Abel Varzim

 (Evocação dos primeiros tempos de pároco no Bairro Alto)

Desci, a passo e passo, a longa escada
Que leva em linha recta à podridão.
Mal eu cheguei, soou como um trovão
A mais feroz, sarcástica risada.

 

E vi!... eu vi a face desvairada
Do Mal erguer-se. E – tétrica visão!
Fazer-me a mesma torva recepção
Numas sonora e louca gargalhada.

 

Que fazes tu aqui? Tudo isto é meu!
Só meu! De mais ninguém! Fica-o sabendo!
E, com rancor, tentou despedaçar-me.

 

Fiquei! Mas quem combate não sou eu,
Porque eu, só de ver o Mal, ia morrendo.
E morrendo inda estou só de lembrar-me.

 

Que fazes tu aí, ó Cristo antigo,
Pregado nessa cruz eternamente?
Liberta a tua mão omnipotente,
Desprega esses teus pés… e vem comigo!

 

Não sabes que, sem Ti, nada consigo?
Não vês que fazes falta a tanta gente?
Oh, vem de novo, como antigamente,
Viver connosco e nós contigo!

 

Não vens? Não queres ouvir a humilde prece
Num mundo que, sem Ti, desaparece,
Vencido pela morte e pela dor?

 

Não vens? Não pode a cruz ficar sozinha?
Pois bem: permite, então, que seja minha!
Eu fico com ela… e desce Tu, Senhor!

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